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Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.

A fila anda, a catraca gira, a página virou. Quem nunca se viu perdido após o término de um relacionamento? Aquele temido momento e quase sempre tão intrigante em nossas vidas. Normalmente nos sentimos fracos e impotentes, principalmente quando a condição mudou e não se tem muito mais o que fazer. Acabou.

É sempre triste, somos humanos, mas é verdade que nestes momentos aprendemos muito sobre nós mesmos.  Quando nos permitimos mergulhar nas sensações e passamos a aprender com o aparente caos, o momento ganha outro tom e de intrigante, passa a ser precioso. É sempre maravilhoso o êxtase de sentir um salto interno ao superar uma dificuldade, ao aprender a lidar com uma nova situação e, assim, alcançar um novo patamar de sabedoria. Muito sinceramente, espero que você tenha tido o prazer de vivenciar algo assim. É verdade que todas as situações nos permitem este aprendizado, mas em especial aquelas que nos fazem sentir o chão ruir, ou sumir, nos permitirão muito mais. Após superá-las certamente nos tornaremos mais fortes e muito mais preparados para novas experiências.

Quando um relacionamento termina, a sensação de perda ou de vazio geralmente parece insuportável e, quase sempre, nos coloca em contato direto com os nossos bichos internos e com as nossas maiores fraquezas. Aí está você novamente, que estava tão bem e em uma zona confortável, tão de repente, não mais que de repente, se percebe em meio a um monte de entulho emocional, que subitamente vem à tona fazendo a sua cabeça pirar. Sempre que sentir algo parecido a uma sensação de pânico ou de desespero, não tenha medo e segure firme, pois são apenas sensações e tudo isso vai passar. Muitas vezes leva algum tempo para que as idéias assimilem a nova condição. Algumas pessoas conseguem se desvencilhar mais rapidamente, outras entretanto, permanecem por muito tempo perambulando por aí presas a esse estado. É fato que quanto mais resistirmos, mais permaneceremos estagnados. Se você se sente assim, talvez você esteja resistindo ao que mudou e não esteja permitindo que o momento desemboque em uma nova situação muito mais apropriada para você. Resistir ao novo normalmente prende você ao passado e a coisas que não lhe servem mais. É possível que tenham sido perfeitas em outra ocasião. Mas neste exato momento, é provável que você não seja mais o mesmo de tempos atrás, e a outra pessoa também não. O tempo passa, a maneira de ver os fatos muda, as vontades mudam… Tudo muda. É também importante citar que, a não ser que você tenha se relacionado com alguém emocionalmente instável, ninguém deixa de ser especial para alguém do dia para a noite. Ele, ou Ela, apenas se encontra em outro momento de sua vida. Não é tão simples compreender e aceitar isso, principalmente quando ainda estamos ligados a uma pessoa. Mas quando enfrentamos o medo de perder alguém com determinação, em prol da nossa própria felicidade, normalmente somos presenteados com uma percepção mais profunda, que nos permite ver um novo caminho se abrir bem diante de nossos olhos.

“Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão” diz Carlos Drummond de Andrade em seu poema Memória. Ele que também comenta sobre a ausência assimilada no poema Ausência, representada pela superação da perda de algo, ou de alguém. Quando uma pessoa passa pelas nossas vidas, quase sempre deixa um ressoar visceral, e queira ou não, ela passa a fazer parte até mesmo do nosso DNA, como nós também passamos a fazer parte do dela, queira ela ou não. É a memória da pele, memória da convivência, memória do que foi bom, do que não foi tão bom… Memória do que foi dito, memória daquilo que nos tocou. “I have got you under my skin” (Eu tenho você sob minha pele – Frank Sinatra). Esta memória é o que nos transcende em novos seres. As porções que levamos e que deixamos. Por isso, os relacionamentos são tão poderosos assim. O tempo todo o outro nos transforma por meio da sua experiência de vida, e nós transformamos o outro também. Nos dicionários deveria constar que relacionar-se nada mais é do que a arte de se transformar por meio de outra pessoa. Perceber esta lógica e criar condições de adaptação ao relacionamento, de respeito e de tolerância  ao seu momento e, ao momento do outro, talvez seja o verdadeiro significado da palavra amor.

Iorrana Ribeiro
Engenheira e Produtora Web

Para refletir e curtir, seguem os poemas de Drummond que citei no texto acima:

AUSÊNCIA
(Carlos Drummond de Andrade)

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

MEMÓRIA
(Carlos Drummond de Andrade)

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Iorrana Ribeiro

Produtora web, Engenheira Eletricista, Fotógrafa e Consultora de Qualidade de Vida. Twitter: @iorrana Instagram: @iorranaribeiro Visite http://iorranaribeiro.com